24.3.11

Íntimo.

Esse texto tem um destinatário próprio, então mesmo que não leiam, ninguém vai perder a amizade.
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Essa é uma história fictícia, os eventos e pessoas nela apresentados são fictícios. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Conversa...


Lembro que a primeira vez que vi ela, não havia dormido, esperado por um bom tempo numa fila desde às seis e meia da manhã. Lembro também que antes de vê-la, tinha ido em casa pra mudar de roupa e passar desodorante, é sempre bom ser precavido. Lembro de estar me aproximando e de ver uma menina de porte altivo, com cabelos que não eram nem grandes nem curtos, e uma expressão de poder nos olhos, algo como o olhar de quem se prepara para um desafio, sempre. Lembro de tocar em seus braços com meus dedos sujos de tinta, a fim de que esses a sujassem também, e me recordo muito bem de ter pedido e, no pequeníssimo intervalo de tempo onde um silêncio misterioso quase passou despercebido, de ter sentido medo enquanto sua resposta não veio. Lembro que eu observava-a, enquanto ela pedia dinheiro para os motoristas de todo carro que parasse ali por perto, e dá pra sentir como se fosse agora, a forma determinada e sedutora com que ela caminhava por entre os carros, desprezando os caminhoneiros que se desmanchavam com seus olhares e sorrisos. Lembro muito bem de admirar isso, como se ela fosse uma das musas gregas, inspirando e deslumbrando os poucos homens de divina sorte que delas conseguem a atenção. Lembro dela indo embora com outro cara, não que ela fosse ficar com ele ou coisa assim, mas lembro que, não importando o que ela viesse a fazer, eu sentia apenas que ela ia embora com outro cara. Quando foi à noite, pensei até que ela não gostasse de meninos, pensei que, por mim, ela sentisse apenas a repulsa comum às lésbicas para com garotos da minha estirpe. Mas quando a noite se lançou um pouquinho mais adentro, lembro de pensar que as coisas não fossem bem do jeito que eu imaginava. Eu, alucinado como gosto de ficar nas festividades de grande importância, circulava por todo o território da festa procurando qualquer coisa mais interessante que os meus pensamentos, encontrando por algumas vezes olhares retribuídos por ela, olhares que talvez dissessem o mesmo que meus olhos queriam dizer. Eu, pela loucura que na hora me cabia, não conseguiria de jeito nenhum distinguir se o que constatava era fruto da verdade ou de uma mente ansiosa por romances, de qualquer forma aquele dia eu não estava no melhor estado nem para afirmar sentenças quanto à mim, muito menos, então, quanto aos outros. Lembro que no dia seguinte, perdido na falta de memória comum ao excesso, não conseguia dizer se, quando eu passava perto, sua mão realmente roçava e apertava a minha ou se essa era apenas uma tentativa da minha cabeça de tornar real um gesto afetivo que eu tanto desejava. Contei, embasbacado, aos meus amigos, mas infelizmente eles podiam tanto quanto eu dizer se aquilo que eu a eles contava era imaginário ou não. Lembro de perder alguns dos horários mais nobres do meu pensamento, nela. E de que ficava em mim uma sensação de que nem os olhares ou os toques haviam sido falsos. Tenho na lembrança, ainda, a forma como ela se portava enquanto conversava durante o intervalo das aulas. Tendo me convencido que nenhum interesse nela poderia despertar, apenas a observava reagir socialmente às pessoas, a forma como ela sorria ao falar e como seu olhar sempre conservava, em qualquer expressão, uma posição atenta, comum às pessoas que não gostam de deixar passar nada. Conservei por alguns dias esse papel de espectador, preferindo não lançar de nenhuma ação, já que ela, figura misteriosa, parecia saber tanto quanto eu que, em certas situações, é mais recomendável que se faça as coisas sutilmente. Tudo corria de uma forma não-íntima, até que nessas eventuais idas a bares depois da aula, me peguei acompanhado dela. Tentei mostrar de mim apenas o que parecia agradá-la, e acompanhava cada palavra sua, assim como ela parecia se ater às minhas. Fim de bar, mas não fim de noite, caminhávamos em direção à sua casa, o peso do que passava dentro de mim, pensava em algo como não me segurar, me atar à ela, dizer que a desejava. Não nos despedimos, surpreendemente essa garota também conservava valoroso apreço por algo de uso lícito em vários países europeus, mas que ainda não conseguiu esse avanço no Brasil. Subimos, e experimentamos de um pecado conhecido como cemitério, que consiste em bolar-se um béck com as pontas de vários outros cigarros, aproveitando assim apenas o "creme" que fica retido nos finais de todo cigarro de cânhamo. O cemitério por si só é uma bomba, misturado aos efeitos proporcionados pelo álcool, seu pensamento pula, pulsa e não pára. Lembro de olhar pra ela, e procurava dizer da forma mais sutil e gritante possível, mas sem usar de verbo algum, que a queria. Não deu certo, provavelmente ela não percebeu. Findado o ritual, ela fica em seu apartamento com um beijo meu no seu rosto, apenas, eu volto pra casa cheio de um sentimento que era um blend de raiva, vontade e frustração, frustração não por nada ter feito, mas porque nada havia a se fazer. Lembro que os dias que vieram passaram-se meio despercebidos, desviava meu interesse para outras garotas, deixando aquele possível caso como pendente, confiava na crença de que, se fosse consensual de ambas as partes, simples, aconteceria mais cedo ou mais tarde.
Mais uma das já citadas eventuais noites de bar após a aula aconteceu de sairmos eu, ela, e mais dois amigos meus. Seus olhos me traziam algo bom, haviam deixado um pouco do desafio de lado, havia, no lugar, um ímpeto, mais determinação, talvez. Eu marcava o tempo e os goles, respectivamente, no pé e na garganta, e Cronos passou num clima tranquilo, com o humor cabível a nós quatro. Fim de bar, mas não fim de noite, de novo caminhamos em direção ao seu prédio, eu queria muito que ela nos chamasse pra subir, não porque planejava alguma coisa, tenho, até mesmo, o costume de que, ao me aproximar do que parece ser "a hora certa", me enxer de pessimismo e derrota, o que já me privou de muitas cagadas, porém, provocando o mesmo efeito no que poderia ser bom mas, por isso, me vi impedido de provar. Lembro dos quatro subindo pelo elevador, falando sobre alguma coisa engraçada e descontraídos com a vida, lembro da porta se abrindo e eu observando de novo os móveis do lugar, me sentando no chão e deixando que meus olhos discretamente a acompanhassem enquanto ela gesticulava e se movia. O pino da granada foi tirado, era só questão de instantes pra bomba explodir em nossas mentes. Fumei pouco, queria a sobriedade do momento, se me envolvesse ali nos pensamentos corriqueiros à minha loucura induzida perderia toda a graça do momento. Findado o ritual, conservamos um diálogo tranquilo, até que meus amigos resolveram avisar que irião embora. É engraçado, eles nunca vão embora, um ou outro sempre acaba conservando a coragem de ficar mais um pouco. Deixei que meus olhos corressem de um a outro, numa tentativa de convencer alguém de ficar ali, apreciando mais um pouco a companhia dela. Mas, nada, um alegou ter de trabalhar de manhã, outro que estava cansado... "Você não quer ficar aqui?", ouço, paro, demora uns instantes até que eu engula. "Você não tá sendo só educada?" - "Não", sorri... sorri - "Mesmo, você tem certeza que eu não vou incomodar?", apreensivo - "Tenho, pode ficar tranquilo, eu não tô com sono", solícita. Me despeço deles, eu fico. Nos sentamos na cama, peço permissão pra tirar o tênis, cruzo as pernas, olhamos um pro outro, conversamos sobre a noite, sobre alguma coisa nossa, rimos um pouco. Ela diz que está com sono, eu pergunto se realmente não tô incomodando, ela diz que não. Ela deita, digo que nessas horas mesmo que a gente não vá dormir é legal ficar deitado, ela sorri concordando. Me deito ao seu lado, de bruços, olho-a. Começa a contagem, assunto randômico, risinhos, momento de silêncio, assunto randômico, risinhos, momento de silêncio, assunto randômico, risinhos, momentos de silêncio, assunto randômico, risinhos momento de silêncio, momento de silêncio, momento de silêncio, Beijo.
Beijo, e, da minha cabeça, um furacão toma conta do corpo inteiro. Penso no quanto ela é sedutora, e meço com meus lábios a forma como ela beija, escorrego com a língua pelo seu queixo, retorno à boca... Sinto seus braços passarem pela minha cintura e suas mãos se encaixarem nas minhas costas, faço o mesmo. Esquadrinho seu corpo com a ponta dos meus dedos, mordo de leve suas bochechas e seu pescoço. "She's so heavy". De vez em quando abro meus olhos,aprecio a forma como os seus ficam fechados e torno a fechar os meus. Num ensejo, sinto que aos poucos vou perdendo partes da minha roupa, e com ela o mesmo acontece. É quente, macio, leve, extasiante, forte, tenso. O mundo acaba, apenas nossas sensações e o barulho da respiração que imperam. É o que basta. Nossos olhos por vezes se encontram e, se não me engano, eram da mesma família dos olhares que imaginei termos trocado na festa. Sinto seu corpo se movendo com o meu e uma sensação de segurança e conquista fica cravada na mente. Acendo um cigarro, pergunta se ela vê algum problema em conversar depois do sexo, nã - ótimo. Deitada de bruço, acaricio da nuca até sua cintura, alterno com isso alguns beijos no ombro, comento alguma coisa sutil, melhor não forçar, sempre. Enquanto ela sorri, ela sorri, eu percebo que não tinha reparado até então, o quanto era bonito quando ela sorria. Deve ser perto das cinco, e ela dorme sorrindo, sorrindo...Dizem que os olhos são a janela da alma, quem disse nunca viu esse sorriso. Olho pro teto, contemplo na minha mente o que aconteceu. Me enxo com algumas duvidazinhas, como se ela gostou ou não, quais defeitos ela vira até agora, o que ela achou do meu corpo ou da forma que me comportei o tempo todo - ainda sorri. A manhã chega ostentando uma beleza que parece reservada a dias assim, de plena satisfação, quando se está só feliz, mais nada. Enquanto me vestia, tocava-a à cada peça de roupa, me despeço com um beijo. No elevador olho pro espelho, agora sou eu quem sorri. Bom dia ao porteiro, acendo outro cigarro, sorrindo. Tá difícil de engolir tudo que aconteceu, até ontem à noite eu não era a mesma pessoa. O cigarro queima suave, e a fumaça sai da boca rápido. Encontro dois conhecidos indo pro trabalho, não consigo me conter, me vejo sorrindo sozinho, bobo.
Os dias que se passaram só vieram a deixar as coisas mais fortes, o primeiro dia foi uma introdução breve do que seria. Lembro como se fosse ontem e foi mesmo, de ainda admirar o mesmo sorriso de uma simetria parnasiana, impecável. Agora, não sei o que é exatamente, não consigo prever o que acontece depois, nem quando estamos juntos. As coisas, a par do meu pessimismo, não se mostraram monótonas, ainda, pra mim. Conservo os mesmos temores do primeiro dia, ainda somos um pouco estranhos um ao outro. Mas parece que tá tudo bem. Os defeitos começaram a aparecer, mas eu acho que isso a gente vai passar tranquilo, ou não... Não sei se ando fazendo as coisas certas ou erradas, às vezes chego a nem saber como estou fazendo. Tenho medo de que tudo torne competitivo e escroto, do jeito que as coisas costumam acabar ficando, mas não importa. Tenho recebido elogios quanto ao casal que formamos e meus amigos dizem que eu perdi o "quê" de figura sôfrega que me era comum. Concordo, faz tempo que não me sentia feliz assim.
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Quanto ao texto, acho que ele é auto-explicativo. As músicas foram: , I want you, Tear you Apart, Indie Rokkers, Vow, Us, Vcr, Home e All I Need. Atenção especial pra essas últimas duas.

Espero que você goste.

26.2.11

Pipocas.

É engraçado, de certa forma, como eu tenho uma tendência a superlativar as coisas. Tanto quanto é engraçado a forma que costumo me lembrar das coisas que não eram pra ter importância alguma, como a roupa de uma pessoa que passava enquanto algo marcante acontecia. Dessa vez cometi o mesmo erro com o cheiro de pipoca amantegada, mas é melhor, se for pra realmente dizer algo, que seja do começo. Nas cidades de poucos habitantes (pouco mesmo, só dando pra aceitar até os quinze mil) de tempo em tempo sempre acaba por aparecer, por iniciativa da própria cidade ou não, parques de diversões que por três, quatro dias paralizam a cidade nos pontos em que se instalam. Não tem um que não fique eufórico e cheio de expectativas quando o comboio de carros e pequenos caminhões aportam com suas parafernalhas de ferro em algum lugar espaçoso da vila e em pouco tempo estruturam brinquedos que, na visão de uma criança que, ainda não tendo um xbox360 passa a tarde jogando burquinha, são promessa de uma diversão sedutora e macia. A barca, o kamikaze e o bate-bate são, por assim dizer, pequenos ídolos de metal e fibra toscamente pintados nos quais aqueles que insistem em levar a vida em cidades que não existem voltam sua paixão e admiração. Chamo atenção aqui justamente para meu problema de atenção, não vou contar uma história sobre parques de diversão, mas é que por uma nostalgia inesperada acabei por me deixar levar por exageradas descrições. O fato é que ali estava o parque, no auge de seu primeiro dia, exibindo sua ilimitada imaginária imponência, e aquele que está parado vendo outras crianças descerem de um escorregador inflável gigante sou eu. Não reparem no físico de menino que levou a sério demais a propagando do biotônico, recomendo olharem mais perto e mais pra baixo, descendo pelo braço, minha mão direita, que nesse momento segura dois ingressos custando três dos cinco reais dados pelo meu pai. Aperto eles com força, morrendo de medo de os perder já que pra mim esses ingressos significam mais do que míseros (nem tão míseros assim naquela época) três reais. Eram, em verdade, o botão ígneo de um plano que eu havia traçado e revisado meticulosamente desde que havia sido informado da chegada do parque onde eu e os outros moleques que jogavam burquinha ou empinavam pipa conhecíamos por campão. Atento também para o fato de não olhar eu apenas "crianças descendo de um escorregador inflável gigante", dirigia especial acuidade a uma menina que naquele dia exibia uma bonita-de-se-ver trança que descia até metade das suas costas e uma genuína e atrevida camiseta rosa, não rosa ROSA, mas rosa meio clarinho. Caroline (e agora abro um longo adendo pra explicar que Caroline, não é nenhuma dessas carolines que se encontram por aí: cabelos castanho claro, só um pouquinho ondulado, a pele macia e branca de um jeito suave, relaxante, seu corpo não era da esbeltez digna de uma modelo e uma atriz, pelo contrário, era marcado por pequenas áreas ligeiramente mais fofinhas, o que provocava uma graça aos seus movimentos e expressões, o rosto se caracterizavam por apenas dois pontos, uma pinta não esperada localizada num lugar da bochecha que apenas as incertezas da genética poderiam acertar tão bem, e uns olhos, olhos que não eram daquele mundo, olhos que convidavam, acariciavam, beijavam e sorriam, olhos verde-jade, mas não pense no verde natural aos olhos, pense no verde natural à pedra preciosa, um verde que penetrava a alma, preenchendo-a. Caroline me tratava, na maioria das vezes, com a doçura de quem trata um bichinho [pena que só hoje sei bem disso], mas sempre mantendo o inevitável desprezo de um ser humano pertencente a um tipo superior. Nas aulas de arte, costumávamos fazer os trabalhos e no recreio nos deixávamos levar por algum assunto concernente à aula ou a pequena vida daqueles tempos) desfilava naquele escorregador vermelho, enquanto os bilhetes eram sufocados pelas minhas mãos. Desde quando a vira na fila de acesso ao brinquedo, não me dei ao esforço de me aproximar ou ter com ela qualquer tipo de contato, só encostei com os braços em uma grade qualquer e apreciava seus movimentos com minha visão e meus três graus de miopia. O plano, que já ia me esquecendo, foi posto em prática assim que o tempo de dez minutos (arredondados pra oito) destinado à diversão de Caroline no grande escorregador inflável se findara. Ela não estava acompanhada de nenhuma amiga ou de seus pais, o que achei um verdadeiro golpe de sorte, então me aproximei. Eu disse "Oi, tava legal esse brinquedo?" Ela disse "Tava, mas ficou pouco tempo" Eu disse "Vamo comigo na roda-gigante?" Ela disse "Não posso, meu pai só deu dinheiro pra um brinquedo." Eu disse "Eu tenho dois ingressos dá pra você ir comigo." Ela disse "Tá bom". Até agora, perfeito. Ela não me achou atirado demais, e acho que eu penteei meu cabelo de um jeito legal. Enquanto caminhávamos até a roda-gigante, nada dissemos, ela devia estar meio cansada por ficar subindoescorregando, eu não conseguia dizer nada, mesmo. Do lado do brinquedo havia uma carrocinha de pipoca, e achei que seria uma boa pegar um saquinho pra gente ficar comendo, afinal só custava um real, o que faria que me restasse ainda um. Então comprei a pipoca, e ofereci pra ela, que recusou gentilmente. Ofereci de novo pra ver se ela só não queria por educação, acabei até dizendo que a pipoca tava boa, mas não teve jeito, não. De todo modo entramos em uma das gaiolinhas e sentamos colocando a proteção, que consistia em uma barra de ferro vermelha, na nossa frente. Continuei comendo, a etapa do plano que se seguia ainda não estava na hora de ser executada. Tudo tranquilo. A roda-gigante funcionava, eu esperava o momento em que ela parasse um pouco a fim de que as pessoas admirassem durante um tempo a vista do alto, e ela realmente parou. Era aquele o momento que eu havia planejado, minha barriga com mais borboletas que o Jardim do Éden, tentava impedir o que eu tinha certeza que era obrigação de se fazer. Não deu outra, largando o saco de pipocas (o que levou Caroline a um pequeno susto), segurei as mãos mais macias de todo o universo pela primeira vez, e, em uma questão fracionária de segundo, pressionei meus lábios contra os de Caroline. Devo ter ficado assim uns três segundos, até que, constatando reação nenhuma sendo esboçada pela menina, voltei à posição anterior, encarando-a percebi que ela tinha imprimida no rosto uma impassibilidade de estátua. Eu tinha me preparado pra todos os tipos de cena possíveis e esperava, de verdade, que ela fizesse qualquer coisa, menos isso. Não demorou muito até que seus lábios, eu lembro, tremessem agitadamente e a boca fizesse aqueles movimentos de quando a gente vai chorar mas quer fazer de tudo pra não o fazer. Ela chorou, mas não pense você que foram aquelas lágrimas derrubadas por consequência de uma emoção arrebatadora, não... Caroline abriu o berreiro, tanto que o moço que cuidava da roda-gigante pôs-se rapidamente a tirá-la de lá. Eu, estático, não me recordo exatamente se ela saiu correndo chorando, se ela só saiu correndo, se ela foi chorando andando, ou se cessou o choro e caminhou através das pessoas, mas me lembro muito bem do cheiro rançoso e denso exalado do carrinho-de-pipoca, lembro dele entrando pelo meu nariz como um resumo de tudo que acabara de acontecer, acentuando minhas mãos sujas de óleo e meus lábios salgados. Fui pra casa, disse que tinha sido legal quando me perguntaram, menti sobre um segundo brinquedo que havia ido, deitei na cama com a luz acesa, os olhos abertos, e o cheiro de milho estralado perfurando meus pulmões.
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Tenho demorado com as postagens, e isso parte do pressuposto esperançoso de que alguém de algum jeito as espera, mas pelo menos tô escrevendo contos maiorezinhos e isso talvez seja um bom sinal. Se alguém vier pedir da música, deixei uma playlist repetindo com quatro: "Epilogue" do Antlers, "Cinco Minutos" de Jorge Ben e "House of Cards" e "Jigsaw Falling Into Place" ambas do Radiohead. Algumas coisas meio relevantes aconteceram, e tô pensando bastante em mim nesses dias, não de um jeito muito positivo. Essa história tem a ver com algo que rolou esses dias e o finalzinho tem os sentimentos meio inspirados num caso que o Paulo (que por acaso escreve sempre que o ócio permite no "Histórias de um Drogado") acabou de me contar. Longa Vida ao Desconstrutivismo.

PS1: Não tenha medo, em negrito estão links mágicos que te levam pra um outro lugar.
PS2: Ninguém fala amanteigado.

3.1.11

Eu te amo, Haldol.

Aprontava para que tudo estivesse perfeito. Escolhera o tema: Peter Pan, e como Sininho brilhava com elegância pela área livre do salão, aqui e ali dava dicas de como queria sua decoração. Wendy fora posta perto do bolo, ao lado do próprio Peter, enquanto os Meninos Perdidos decoravam junto de animais e árvores frutíferas todas as paredes do ambiente. Gancho e Tic-Tac paralisados representavam, respectivamente, fuga e perseguição. O bolo cheio de um glacê que mesclava verde-musgo e verde bem clarinho como seu vestido, recheado, entre as camadas de pão-de-ló, com o melhor chocolate que a padaria poderia oferecer. Em seu topo, a turma do conto de fadas da Disney ilustrava com sorrisos verdadeiramente sinceros uma dança estática: um ali com o pézinho erguido, outra segurando as pontas da saia, Peter bradando sua espada de madeira enquanto hipotéticamente sapateava sobre aquele verde "Palmeiras New School", os meninos perdidos esboçavam caretas, cada uma delas melhor do que a outra. João e Miguel feriam seus rostos de cera com expressões de dúvida e bravura. Certificava-se ela de que os salgadinhos iriam chegar todos no horários, sem um segundo de atraso, para que ficassem quentes o bastante para todos os convidados que tivessem a barriga roncando por uma esfiha, risólis, coxinha de carne e de frango, bolinha de queijo, pastelzinho de carne, cachorro-quente e empadinha. Não poderia esquecer dos doces, e quem se esqueceria dos doces com um um Peter Pan de quase dois metros de altura apresentando-os com uma larga gargalhada de dentes brancos e (de novo!) espadinha de mentira. O mellhor da técnica de manufatura em beijinhos, brigadeiros, cajuzinhos, olhos-de-sogra e o caralho a quatro. Uma faixa de aniversário recebia os convidados: PARABÉNS, MARCIA! Tudo como devia ser. Seu vestido, costurado por uma tia muito boa com máquina/olho/e agullha, ótima costureira, era como o de Tinker Bel (ou Sininho mesmo, né, escritor babaca?), um tomara-que-caia verde que seguia até o comecinho do joelho, terminando em babados que folhiformemente se ajustavam às suas pernas, as costas livres, é claro, numa abertura que quase-quase-quase beirava o cocs, mas "pelo-amor-de-deus, né?" ainda estamos numa festa de aniversário. Havia marcado para as 19:30, sabia que todo mundo acabava chegando às nove, mesmo. Sem problemas, seus amigos eram todos descoladíssimos e nós, descolados que somos, sabemos que ninguém com meio dedinho de estilo chega em cima da hora marcada. Coisa pra bobos, e Márcia sabia muito bem disso, por que não saberia? O Dj contratado, pago meio a meio (parte de seu suadíssimo dinheiro e parte da aposentadoria de sua mãe) tocaria o melhor das canções de sua época, essa época, todas as épocas, bélle épocque. Morria de nervosismo, queria tudo perfeitamente perfeccionistamente perfeito, e só não roía as unhas pra que elas não estragassem, mesmo. Porque se fosse pela ansiedade roeria uma a uma, unhinha por unhinha (e a fonética que se foda!). Há tanto queria isso, essa festa rondava em seus sonhos, três semanas de noites mal-dormidas, planejando chapéuzinho, óculos bregas, aqueles negócinhos (também brega) plumozinhos de passar em volta do pescoço, todos de todas as cores. Cervejinha pros amigos chegados naquela loira, ela também até gostava, não muito, dois copos lhe subiam a cabeça o suficiente. E Coca-cola não faltava praqueles safadinhos abstêmios não-bêbados, mas que sempre davam um jeito de se animar e animarem qualquer festa. Parecia tudo nos conformes, o moço da câmera fotográfica que iria tirar fotos e gravar já estava ali, Márcia adorava pontualidade, nos empregados. Podia começar, podia começar. Antes iria dar uma passada na casa da Letícia, dar os últimos retoques no penteado, que criticamente, firmemente, rigidamente escolhera nas melhores revistas que lá pelos cinquenta reais poderiam comprar de uma vez. Iria entrar quando começasse a tocar Whiter Shade of Pale do Procol Harum, algumas horinhas só, minutinhos a esperar. Márcia mordia os lábiozinhos pequenos, louca de angústia, e uma pressão arterial de estourar veia de guaxinim, qualquer güaxinim (com trema ou sem trema, o professor Pasquale não pode me corrigir, HAHAHAHAHA, FUCK YOU OFF, PASQUALE!) .
Finalmente a festa. Como esperado, os convidados foram se chegando lá pelas oito e meia, nove horas. Elisa "sempre com o nariz empinado, não mudava nunca", Flávio "rapaz inteligente, pena que não sabia nada sobre a vida, bonitinho até", Roberta "ela ia atacar aqueles brigadeiros, gorda!", Denise "amigo é os denti, Denise fez ela saber disso rapidinho", Franciélly, Patrícia, Vânia, Vera Lúcia, Fátima, Cida, João Roberto, Carlinhos, Cézar, Mauro, Débora, Salete, Antônio, Gilberto, Francisco, Ludmilla, Berê, José, Fernando, Joca, Matias, Geno... na verdade (como vocês puderam perceber ao pularem essa parte) eram só nomes pra Márcia, um outro desafetozinho, quem ela esperava insadecidamente, como uma líder de torcida americana, era Renato, desde o Ensino Fundamental, seu grande amor platônico. Planejara toda aquela festa não praquelas pessoas, que seriam apenas atores coadjuvantes no cenário que havia fantasiado em sua mente, mas para aquele rapaz de cabelos castanho-claro, olhos de mistério e um sorrisinho meio amarelo, meio sincero, bonito de dar inveja a qualquer pseudo-gatão da sua época. ele chegara um pouco antes do Michel, como todos, viera a caráter, e era o Peter Pan mais bonito que Márcia, tinha certeza, veria em toda sua vida. Ele cumprimentara ela com um beijinho no rosto (e que lábios eram aqueles, Senhor?), sentara-se na mesa de seus velhos amigos e, enquanto Márcia percorria o salão conversando e recebendo convidados, direcionava olhares maliciosos para o seu vestido, que cumpria com o propósito de sua costura. Quando fazia aquela "social" na mesa de Renato e seus amigos, Marcia puxou seu rosto um pouquinho pro lado e sussurrou no ouvido "Hoje a noite é nossa", ele sorri, e põe a mão de levinho em suas pernas, era a confirmação que Márcia precisava. Durante o resto da festa foi só felicidade, os salgadinhos, como a moça tanto queria, estavam quentinhos e crocantes, os doces, pequenos pedaços do paraíso em forma de delícias açucaradas. O Dj tocara todas as músicas que Márcia rigorosamente selecionara, rigorosamente, mesmo. Uma a uma, mas que beleza de perfeccionismo, hein, Márcia? Chegava então a hora da valsa e a moça se tremia de nervosismo, iria, é claro, dançar com Renato e borboletas dançavam prematuramente em seu estômago. Whiter Shade of Pale era a música que começava e terminava a festa, e que música era essa! Quando o momento foi anunciado, ele de pronto se levantou e foi em direção à Márcia, que o esperava com um sorrisinho sem graça - And so it was that later/As the miller told his tale/That her face, at first just ghostly/Turned a whiter shade of pale - dançaram levemente, docemente, suavemente no centro do salão. A mão de Paulo em sua cintura, e as palavras que ele sussurrava só pra ela. Deixava-o guiar por toda a música e aqueles poucos minutos foram pra Márcia, a inteira eternidade de um sonho, ela sorria, ele sorria, e que belo casal os dois juntinhos não formavam? No fim da música, os dois ainda continuaram dançando, enquanto todos olhavam em direção ao centro, ao par. "Ele tomou ela em seus braços e a beijou" - disse o narrador das antigas novelas de rádio. Márcia fez daquele beijo, tudo em sua vida, e devorou Márcio em sua mente, com sua boca, arrancava cada pedacinho de sua alma, cada átomo de oxigênio que o rapaz insistia em respirar. Terminaram com gritos e aplausos de todos. Era como Márcia sonhara e, naquele momento, cada segundo de sua vida fora retomado em milésimos, desde a primeira vez que o vira, na quinta série. Era perfeito, como ela queria. Ele propôs baixinho que ela fosse à sua casa, mas ela educadamente recusou (era seu aniversário, dava-se direito ao charminho).
Quando a festa então acabara e outros paradisíacos beijos em Renato, Márcia havia dado, depois de ter ajudado na limpeza do salão e pago, cédula por cédula tudo o que devia ser pago aos garçons, cozinheiros e demais empregados do buffet, Márcia fora sorrindo pra sua casa. Lá, tirou na frente do espelho seu vestidinho verde de sininho, removeu a maquiagem com água e um pouquinho de leite de Colônia. Sorria bobamente pra tudo que lhe diziam, nada poderia estragar aquele dia. Na cozinha, foi até a geladeira e tornou água da jarra no copo, pegou seus remédios no baúzinho do armário de cima. Zyprex, Rivotril, Fluoxetina e Príncipe Haldol, não demorou muito para os efeitos virem e Márcia, em sua cama, mergulhar calmamente num êxtase de sono. Dormira sonhando, pois seu aniversário de quarenta e cinco anos, foi, com toda a certeza, o melhor aniversário de sua vida.
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As músicas da Márcia: a famigerada Whiter Shade of Pale e essa é pra ela mesmo Burger Queen do Placebo. Depois de um século sem vontade de escrever qualquer coisa, saiu esse vômito aí, espero que gostem, é a última que morre, né? Devo ter perdido todos os meus três leitores. = / Boa tarde pra vocês.