6.12.10

O Mar.

O mar quando quebra na praia
É bonito, é bonito
O mar... pescador quando sai
Nunca sabe se volta, nem sabe se fica
Quanta gente perdeu seus maridos, seus filhos
Nas ondas do mar
O mar quando quebra na praia
É bonito, é bonito

Perto da praia, havia uma vila de pescadores que se lançavam antes do sol se pôr e voltavam com ele nascendo. Homens de pele queimada, chapéu de palha e olhar cansado, jogam suas redes e arrastam seus barcos no mar. Quem olha de cima, como de um helicóptero, sabe que aquelas naves são jogadas como as redes, a esmo. São peças de madeira e ferro disputando com a natureza pelo direito de viver. As ondas chocam, machucam, com suas línguas de espuma brincam, puxam e soltam as vidas dos homens. Eles não carecem de olhar de cima, porque sentem em cada pelo da pele que só o mar é quem brinca, por isso rezam a cada saída, pedindo, e rezam a cada chegada, agradecendo. Só quando os pés tocam a areia fina da orla é que sabem que amanhã as incertezas voltarão. No mar ninguém tem poder, as ondas quem mandam, e o mais simples capricho de Netuno é caro pra esses homem.
Pedro era um desses homens, nem tão homem na cara, muito homem na alma. E, como todos, preparava suas coisas com o sol já pelas seis da tarde. Fazia sua janta, pedia benção pra mãe, pedia licença pra Iemanjá, e soltava seu cavalo nas águas salgadas. Trotava em seu corcel, caçava na água seu pouco sustento. Suas grevas eram as sandálias, a armadura era a camisa de algodão e o elmo, o chapéu de seu pai. Lutava contra seus dragões pessoais até que o sol desse por nascido. Então atracava na areia, com seu prêmio na rede, vitória. No domingo, dia santo, tinha festa depois da missa. Pedro gostava de Deus, e de Rosa também, que todo domingo ia na missa.
Rosa era uma menina bonita, andava descalça pra sentir o quente do chão. Do cabelo liso, a pele morena de sol e um olhar inocente, nunca resignado, inocente. Varria o chão de casa cantando baixinho as músicas das festas. Dançava com Pedro enquanto guiava a vassoura, sentia aquela respiração forte no ombro, aquela voz que falava baixinho coisas que ela só fingia que era feio de dizer. Pra alegria de Pedro, ela era sua princesa. E não deixava feio pra nenhuma princesa dessas histórias loiras de olhos azuis. Falando em olhos, seus olhos eram de um marrom intenso, que foi o que de verdade conquistou Pedro, arrastou-o como sua rede arrastava os peixes. Ela também caçava seu sustento, afetivo, sabia das armas que possuía. Esperava pelo pescadorzinho na praia, de manhãzinha, esperava com o coração batendo devagarinho até que ele acelerasse ao ver seu amor chegando. Amor. Ia com ele de mão dada até sua casa, um beijo escondido do irmão mais novo. E Pedro já fugia pra casa. Mais do que o suficiente pra alegrar a alma, Rosa fazia seu serviço feliz, com um sorriso de satisfação que qualquer um, por mais que ela negasse, percebia.

O mar quando quebra na praia
É bonito, é bonito
O mar... pescador quando sai
Nunca sabe se volta, nem sabe se fica
Quanta gente perdeu seus maridos, seus filhos
Nas ondas do mar
O mar quando quebra na praia
É bonito, é bonito.

Um dia Rosa espera Pedro voltar, como todos os outros dias. Mas ele não volta. E ela reza pra Iemanjá, Netuno, Poseidon, Deus. Reza chorando, já não disfarça mais. Os pescadores não viram seu barco, "Como podem não ter visto?", mas não viram, não, Rosa. Ela não se entrega, e espera com a paciência de quem vê pouco pra perder na vida. Espera, e esquece que comer ajuda a sustentar as pernas, esquece que dormir ajuda a refrescar a mente. Enfia o rosto nas mãos, na beira da praia, só espera. Ouve os homens gritando - É Pedro que chega! - pensa ela, e é Pedro mesmo. Mas Pedro chega deitado, arrastado pelas ondas verdes, com suas línguas de espuma jocosas, elas não sabem brincar. O corpo de Pedro vira comida de peixe, fica ali, roído. Rosa fica ali, roída. Fica um pouco mais, já não chora tanto, porque tanto já chorara. E quando a ausência é quem condena, a presença só confirma a fatídica sentença que Rosa não queria ouvir. "Morreu, morreu", foi-se mesmo Rosa. Ela sabe, e por saber não quer pensar que sabe, não quer acreditar que vira. Fica por ali mesmo, o corpo é levado, velado, mas ela fica ali. A alma daquele pescador, gelada nas profundezas do colosso marinho, Rosa perdida nas profundezas do colosso que é a alma. Só lamenta. Só espera.

"É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
A noite que ele não veio foi
Foi de tristeza prá mim
Saveiro voltou sozinho
Triste noite foi prá mim"
-
O Mar, É doce morrer no mar.

5 comentários:

  1. o mar é misterioso e doce , traiçoeiro e amigo, como pode ser tantas coisas boas em uma coisa da natureza só. eita jorge amado fodastico.

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  2. ahha, putaquepariu, o texto em si já tava ótimo, depois que ouvi as musicas então, arrepiei aqui!

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  3. Tava achando a coisa mais gracinha do mundo até você colocar um cadáver no meio. Me sinto traída.

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  4. A culpa não é minha, é do Dorival Caymmi

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  5. As ondas chocam, machucam, =\
    sempre tem cadáveres aqui o.o
    eu: Paulão, vc não acha o universo misterioso?
    paulão: mesma coisa é o oceano

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